Inteligência artificial promete deixar você "conversar" com quem já morreu: vale a pena usar essa tecnologia?
Empresas de tecnologia já vendem os chamados "thanabots" (ou "robôs do luto"): chatbots, vozes clonadas e até avatares tridimensionais treinados com mensagens, fotos e gravações de quem morreu, capazes de manter uma "conversa" reproduzindo o jeito de falar da pessoa. Psicólogos veem algum valor no processo de luto, mas alertam para o risco de prolongar a dor da perda e para golpes que miram quem está enlutado.
Já é possível "conversar" outra vez com alguém que morreu, usando só a inteligência artificial. Empresas ao redor do mundo vendem os chamados thanabots, ou "robôs do luto": sistemas treinados com mensagens de WhatsApp, e-mails, fotos, vídeos e gravações de voz que a pessoa deixou em vida, capazes de responder perguntas e manter uma conversa reproduzindo o jeito de falar dela. Em algumas plataformas, a experiência vai além do texto e inclui voz clonada e até avatar tridimensional. O serviço pode custar de poucas centenas a dezenas de milhares de dólares, dependendo do nível de sofisticação. Para quem tem mais de 50 anos — fase da vida em que a perda de um cônjuge, irmão ou amigo próximo costuma ficar mais frequente — vale entender como a tecnologia funciona antes de considerar usá-la, e principalmente ficar atento aos riscos que ela carrega.
A ideia não nasceu do nada: a fundadora do aplicativo de companhia Replika, Eugenia Kuyda, foi uma das pioneiras ao usar as mensagens de um amigo que morreu num acidente para treinar um chatbot que reproduzia o jeito dele escrever — a experiência acabou dando origem ao próprio Replika, hoje usado por milhões de pessoas no mundo. Em 2020, a Microsoft chegou a registrar uma patente para criar chatbots baseados em pessoas específicas, incluindo a possibilidade de recriar quem já morreu, a partir de mensagens, fotos, voz e outros arquivos pessoais. De lá pra cá, uma leva de empresas especializadas passou a vender o serviço por assinatura, e num caso nos Estados Unidos a família de uma vítima de um tiroteio autorizou um avatar de inteligência artificial do rapaz, que chegou a responder perguntas de um jornalista com a voz dele — inclusive sobre assuntos que ele nunca tinha comentado publicamente em vida.
É exatamente esse ponto que preocupa psicólogos e especialistas em ética digital: como o sistema continua gerando respostas novas depois da morte, ele pode "colocar na boca" da pessoa falecida frases que ela jamais diria em vida. Manter uma lembrança de alguém, como uma gravação de voz ou uma carta, é diferente de manter uma conversa contínua que parece nunca se despedir — para alguns especialistas, isso pode dificultar a aceitação da perda, um processo que já é naturalmente difícil. Existe ainda a questão de quem tem o direito de autorizar essa recriação: os filhos, o cônjuge, ou a própria pessoa deveria deixar isso combinado antes de morrer? E como o avatar depende de uma empresa e de uma assinatura para continuar funcionando, ele pode sofrer uma espécie de "morte digital" se o serviço fechar ou a mensalidade parar de ser paga.
Para quem tem mais de 50 anos e está pensando em usar algum desses serviços — ou foi procurado por um —, vale a cautela de sempre: desconfiar de qualquer oferta que chegue por mensagem não solicitada prometendo "reencontrar" um ente querido, nunca informar dado pessoal ou financeiro de quem já morreu, e ler com calma o que a empresa promete fazer com as fotos e gravações enviadas. E, principalmente, vale conversar com um psicólogo antes de decidir se essa tecnologia realmente ajuda no seu luto, ou se, no seu caso, pode acabar adiando uma despedida que já dói o suficiente sem precisar de ajuda de máquina nenhuma.
Fonte: Gizmodo Brasil