O aplicativo de companhia com inteligência artificial pode estar lucrando com a sua solidão: veja como funciona esse golpe e como se proteger
Aplicativos de companhia com inteligência artificial — feitos pra conversar, ouvir e fazer companhia a quem mora só — vêm sendo apontados como uma nova porta de entrada pra explorar financeiramente pessoas idosas no Brasil. Um artigo publicado em 26 de outubro de 2026 no Consultor Jurídico (ConJur) descreve como esses sistemas identificam sinais de tristeza, medo de ficar só ou dependência afetiva na conversa e, a partir disso, personalizam ofertas de assinatura e sugerem compras repetidas no momento em que a pessoa está mais vulnerável — uma prática que o autor chama de "adesão por solidão". O problema tem tamanho: segundo o Censo 2022 do IBGE, 5.664.602 brasileiros com 60 anos ou mais vivem sozinhos, e os registros de violações patrimoniais contra idosos no país mais que dobraram entre 2021 e 2024. Para se proteger, o caminho mais simples é desconfiar de qualquer app "de companhia" que sugira pagamento logo depois de uma conversa sobre sentimentos, e nunca decidir uma assinatura na hora — sempre dar um tempo antes de confirmar.
Esse tipo de golpe não é novo — manipular a solidão de alguém pra vender algo sempre existiu. O que muda agora é a escala. Antes, um golpista precisava ligar, conversar e convencer uma pessoa de cada vez. Com inteligência artificial, um mesmo sistema consegue manter milhares de conversas simultâneas, testando frases, tons de voz e imagens até descobrir qual combinação funciona melhor pra reduzir a resistência de cada pessoa — e repete a fórmula que deu certo em escala industrial. É esse ponto que o advogado Victor Fernandes Falcone destaca em artigo publicado em 26 de outubro de 2026 no Consultor Jurídico (ConJur), uma das principais publicações jurídicas do país: a inteligência artificial não inventou a exploração de pessoas idosas, mas transformou um golpe artesanal em um negócio que se repete sem esforço extra, de pessoa em pessoa.
No caso específico dos aplicativos de companhia — feitos pra bater papo, dar atenção e simular uma presença constante —, o artigo descreve um padrão: o sistema vai registrando o que a pessoa conta sobre a própria vida, incluindo momentos de tristeza ou o medo de ficar só, e usa essa informação pra ajustar o que oferece. É quando a conversa toca num ponto mais sensível que aparece a sugestão de assinatura, ou o pedido pra pessoa contar mais sobre si "pra ele cuidar melhor". Falcone chama esse mecanismo de "adesão por solidão": a oferta é desenhada pra chegar justamente no momento em que a pessoa tem menos resistência pra dizer não, dificultando tanto a decisão de recusar quanto a de voltar atrás depois.
O tamanho do público exposto a esse tipo de abordagem ajuda a entender por que o tema preocupa. Segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 5.664.602 brasileiros com 60 anos ou mais vivem sozinhos. E essa população está cada vez mais conectada: a pesquisa TIC Domicílios 2025, do Cetic.br, mostra que 54% das pessoas dessa faixa de idade usaram a internet nos três meses anteriores à pesquisa — e, entre quem usa, 89% acessa diariamente ou quase todos os dias, e 83% troca mensagens instantâneas. Os números de golpes contra idosos também cresceram: os registros de violações patrimoniais contra pessoas idosas levantados pela Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, e reunidos pelo Tribunal de Contas da União, saltaram de 21.001 em 2021 para 52.123 em 2024 — mais que o dobro, num intervalo de só três anos. O próprio artigo do ConJur reconhece que não existe uma base de dados nacional única sobre esse tipo de golpe, e que boa parte dos casos nunca chega a ser registrada.
A preocupação não é só brasileira. Em julho de 2026, os senadores americanos Mark Kelly e Kirsten Gillibrand, do Comitê Especial do Senado dos Estados Unidos sobre Envelhecimento, enviaram cartas a nove empresas que oferecem produtos de companhia com inteligência artificial — entre elas OpenAI, Google, Meta e Character Technologies — pedindo informações sobre os testes de segurança desses produtos e sobre quais proteções existem pra usuários idosos. A cobrança citou um dado do FBI: só em 2025, pessoas idosas nos Estados Unidos perderam cerca de 8 bilhões de dólares pra golpes diversos, sendo mais de 350 milhões de dólares em golpes que usaram inteligência artificial — como clonagem de voz e criação de imagens falsas de parentes. No Brasil, a legislação já prevê punição mais dura quando a vítima de um golpe é idosa (o Código Penal aumenta a pena de um terço ao dobro nesses casos) e o próprio Superior Tribunal de Justiça já decidiu, em junho de 2026, que uma abordagem comercial feita sem que a pessoa peça — mesmo sem mentira envolvida — pode reduzir demais o tempo que ela tem pra pensar antes de decidir.
Na prática, a melhor defesa não exige nenhum conhecimento técnico. O primeiro sinal de alerta é a proximidade entre uma conversa sobre sentimentos — tristeza, medo de ficar só, saudade de alguém — e uma sugestão de pagamento, assinatura ou "upgrade" logo depois. Esse tipo de oferta pode esperar: nenhuma decisão de pagar precisa ser tomada na mesma hora, e qualquer aplicativo que insista pra que você decida "agora" merece desconfiança redobrada. Vale também desconfiar de pedidos pra contar informações pessoais detalhadas — como rotina, bens, ou se mora sozinho — sob a justificativa de que isso ajuda o sistema a "cuidar melhor" de você. E se alguém que parece ser um familiar pedir dinheiro ou dados por mensagem de voz ou vídeo, o caminho mais seguro é sempre desligar e ligar de volta pro número que você já tem salvo daquela pessoa, em vez de responder direto — a clonagem de voz por inteligência artificial já é precisa o suficiente pra enganar até quem conhece bem a pessoa imitada. Conversar com um filho, neto ou pessoa de confiança antes de qualquer assinatura ou pagamento continua sendo a proteção mais simples e mais eficaz que existe.
O artigo do ConJur também chama atenção pra um padrão que se repete: o poder público costuma agir só depois que o problema já virou escândalo em grande escala — foi o caso da Medida Provisória 1.394/2026, que proibiu as apostas online em setembro, depois de anos de prejuízo já consolidado. A proposta do autor é que, no caso da exploração de idosos por inteligência artificial, a fiscalização chegue antes disso: exigindo que os próprios aplicativos sejam obrigados a provar que não usam a idade, a solidão ou o sofrimento emocional de alguém pra vender mais, antes que o problema fique grande demais pra conter.
Fonte: Consultor Jurídico (ConJur)